Não mudei, nem São João, quem mudou foi a cidade.

Saudade do São João de outrora.

15/06/2016 | 05:35   
Era a festa da alegria Era a festa da alegria

 

Do Sagrado ao Profano, o São João é do povo.

“Meu divino São José, imploro em vossos pés, mandai chuva com abundância, meu Jesus de Nazaré”.

Da plantação a colheita: 

São José, o carpinteiro que prepara o milho junino.

Para os nordestinos a preparação junina inicia-se no dia 19 de março, dia em que é festejado São José. Como manda a tradição e a crença popular, plantar no dia 19 de março é sinal de fartura durante todo ano, principalmente para a colheita do milho. Muitos agricultores esperam a chuva para regar o solo, e logo em seguida plantar o milho e o feijão. São José é considerado pelos católicos o pai adotivo de Jesus. O carpinteiro judeu formou a família sagrada que entrou para a história. São José foi inserido no calendário litúrgico Romano em 1479.

A distância do festejo de São José para o ciclo junino é de quase três meses, e nem por isso o Santo é esquecido pelos verdadeiros conhecedores da história das tradições populares. Seguindo a história de São José encontramos este relato: Para ressaltar a grande qualidade e poder de intercessão de São José como “trabalhador”, o Papa Pio XII instituiu uma segunda festa em homenagem a ele, a festa de "São José operário". Esta acontece no dia primeiro de maio. Agora a distância fica menor dos festejos juninos. E quem esquece a bela canção imortalizada pelo rei do baião Luiz Gonzaga. Ela diz assim: “Eu plantei meu milho todo no dia de São José, se me ajuda a providência, vamos ter milho à ‘grané’...”. Em junho a colheita do milho abastecerá diversas cidades e povoados. As comidas típicas do São João na sua grande maioria têm nas suas receitas o milho como ingrediente principal.

Títulos:

Por ter falecido nos braços de Jesus e Maria, São José é o padroeiro da boa morte, e divide com Santo Antônio o título de Santo casamenteiro. Agora ele está bem próximo de um dos festejados do ciclo junino.

A cronologia é a mesma: O mês de junho chegou.

A história é bem clara, porém muitos insistem na falta de fundamentação e desvirtuam a cada dia a rica história das nossas tradições.

Santo Antônio, o casamenteiro.

Iniciado o mês de junho, o tão conhecido e esperado mês do São João, muitos se preparam para seguir as diversas programações culturais de norte a sul, de leste a oeste do Brasil. Porém o primeiro festejado tem 13 dias de comemorações em seu nome, são as trezenas de Santo Antônio, ele que também é chamado de casamenteiro. Conhecido como Santo Antônio de Pádua, o português na verdade nasceu em Lisboa, e pode ser chamado pelos dois sobre nomes. Um representa a terra natal em Portugal, e o outro a cidade Italiana onde faleceu.

O Dia de Santo Antônio é comemorado a 13 de junho por ser a data de sua morte (1231). Foi inicialmente um frade agostiniano, tendo mais tarde entrado na ordem Franciscana (1220).

Santo Antônio era conhecido pela sua vida despojada de riquezas, apesar de ter nascido em uma família afluente. O seu trabalho com os pobres foi essencial para que fosse rapidamente reconhecido como santo após sua morte.

A canonização de Santo Antônio aconteceu poucos anos após sua morte, o responsável foi o Papa Gregório IX, menos de ano após sua morte foi considerado Patrono de Portugal e de Pádua. Muitos consideram que terá sido uma das canonizações mais rápidas da história. É considerado como um dos santos mais populares entre os brasileiros e portugueses. No Brasil, Santo Antônio é conhecido por ser o "Santo Casamenteiro", sendo que o Dia dos Namorados é comemorado no dia 12 de junho no Brasil por ser a véspera do Dia de Santo Antônio.

A devoção tupiniquim ao santo português, e o sincretismo religioso:

Os portugueses trouxeram para a colônia além-mar a devoção a Santo Antônio. Em Pernambuco, em 1550, a ele foi erguida uma capela, que deu origem ao primeiro convento carmelita no Brasil: convento de Santo Antônio do Carmo. No sincretismo religioso, Santo Antônio é confundido com os orixás guerreiros Oxossi, Ode e Ogum.

Ao longo de mais de oitocentos anos de devoção, Santo Antônio vem sofrendo toda a sorte de pressão para fazer jus ao título de santo casamenteiro: ser pendurado de cabeça para baixo, ter o Menino Jesus roubado de seus braços, voltar ao nicho (altar) só após a realização do pedido amoroso.

São João, o dono da festa.

O mais popular dos santos juninos, é o único comemorado no dia do seu nascimento, 24 de junho. Filho de Zacarias e Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus. Seu nascimento e missão foram anunciados pelo anjo Gabriel e, quando nasceu, esse fato foi comunicado, conforme combinação, por uma fogueira. Também chamado de o Batista, pois batizou Jesus no Rio Jordão foi, também, seu precursor, pregando antes dele, anunciando-o. Morreu degolado, por ordem de Herodes Antipas, a pedido de sua enteada Salomé.

Uma de suas representações é a de São João do Carneirinho, menino, ainda com um animal nos braços. No sincretismo religioso, São João é o orixá Xangô. Segundo uma das muitas lendas, São João deve permanecer dormindo na noite de 23 para 24, apesar de toda a festança e foguetório aqui na Terra, pois, do contrário, provocaria o fim do mundo por fogo.

Assim surgiu a festa de São João: Uma das versões.

Dizem que Santa Isabel era muito amiga de Nossa Senhora e, por isso, costumavam visitar-se.


Uma tarde, Santa Isabel foi à casa de Nossa Senhora e aproveitou para contar-lhe que, dentro de algum tempo, iria nascer seu filho, que se chamaria João Batista.

Nossa Senhora, então, perguntou-lhe:


- Como poderei saber do nascimento do garoto?


- Acenderei uma fogueira bem grande; assim você de longe poderá vê-la e saberá que Joãozinho nasceu. Mandarei, também, erguer um mastro, com uma boneca sobre ele.


Santa Isabel cumpriu a promessa:


Um dia, Nossa Senhora viu, ao longe, uma fumacinha e depois umas chamas bem vermelhas. Dirigiu-se para a casa de Isabel e encontrou o menino João Batista, que mais tarde seria um dos santos mais importantes da religião católica. Isso se deu no dia vinte e quatro de junho.


Começou, assim, a ser festejado São João com mastro, e fogueira e outras coisas bonitas como: foguetes, balões, danças, etc…


E, por falar nisso, também gostaria de contar porque existem essas bombas para alegrar os festejos de São João.


Pois bem, antes de São João nascer, seu pai, São Zacarias, andava muito triste, porque não tinha um filhinho para brincar.



Certa vez, apareceu-lhe um anjo de asas coloridas, todo iluminado por uma luz misteriosa e anunciou que Zacarias ia ser pai.


A sua alegria foi tão grande que Zacarias perdeu a voz, emudeceu até o filho nascer.

No dia do nascimento, mostraram-lhe o menino e perguntaram como desejava que se chamasse.


Zacarias fez grande esforço e, por fim, conseguiu dizer:


- João!


Desse instante em diante, Zacarias voltou a falar.


Todos ficaram alegres e foi um barulhão enorme. Eram vivas para todos os lados.

Lá estava o velho Zacarias, olhando, orgulhoso, o filhinho lindo que tinha…

Foi então que inventaram as bombinhas de fazer barulho, tão apreciadas pelas crianças, durante os festejos juninos.

(RUIZ, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore)

 

Origem da Festa Junina ou Joanina:

Existem duas explicações para a origem do termo "festa junina". A primeira explica que surgiu em função das festividades, principalmente religiosas, que ocorriam, e ainda ocorrem, durante o mês de junho. Estas festas eram, e ainda são, em homenagem aos três santos católicos: São João, São Pedro e Santo Antônio. Outra versão diz que o nome desta festa tem origem em países católicos da Europa e, portanto, seriam em homenagem apenas a São João. No princípio, a festa era chamada de Joanina.

De acordo com historiadores, esta festividade foi trazida para o Brasil pelos portugueses, ainda durante o período colonial (época em que o Brasil foi colonizado e governado por Portugal).

Nesta época, havia uma grande influência de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio à dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibérica teria vindo à dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.  

Todos estes elementos culturais foram com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros (indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus) nas diversas regiões do país, tomando características particulares em cada uma delas.  

São Pedro, o chaveiro do céu:

São Pedro é festejado em 29 de junho. Foi um dos doze apóstolos escolhido por Jesus para ser o fundador da Igreja Católica "Segue-me e farei de ti um pescador de homens." Foi o primeiro Papa da Igreja Católica Romana. Nasceu na Galiléia e foi pescador. Também conhecido por Simão, Simão Pedro e Simão Barjona. Morreu crucificado, pregado de cabeça para baixo, a seu pedido, por se considerar indigno de morrer como Jesus Cristo.

Nos cultos afro-brasileiros tem um correspondente nos orixás Exu ou Legbá. Popularmente é o chaveiro do céu, aquele que recebe as almas dos recém-falecidos. É o protetor dos pescadores e das viúvas, por ter tido este estado civil.

São Paulo, o menos festejado do ciclo junino:

São Paulo, também, é festejado no dia 29 de junho. Cidadão romano, Saulo foi um perseguidor ferrenho e cruel dos primeiros cristãos, até o dia em que, na estrada de Damasco, ouviu a voz de Jesus, convertendo-se, então. Foi decapitado por uma espada. Poucos comentam sobre ele, aliás, São Pedro teve a sua fama propagada e recebeu um título que muitos imaginam que um dia precisarão: Entrar no céu!

O São João de outrora:

No passado era prazeroso brincar o ciclo junino. Existia união entre os vizinhos, ruas e até bairros, na atualidade é um grupo de interesses comerciais. Poucas são as cidades que mantêm viva a tradição dos festejos juninos, os artistas que representam o tão esperado mês de junho. O ronco da sanfona, o tringuilingue do triângulo e a batida da zabumba nos avisava que São João estava aproximando-se. Hoje, raras são as músicas e eventos que recordem o período junino, até tentam, mas distanciam-se ainda mais do tradicional festejo.


Antigamente a vizinhança reunia-se, dividiam as tarefas. Cada família participava com aquilo que podia. A rua era o arraial, em pouco tempo a preparação da festa era finalizada com: Palhoças, balões, bandeirinhas, fogueira e os fogos, que não representavam tantos perigos como nos dias de hoje. As comidas típicas ficavam por conta das mulheres, nos pratos: Arroz doce, mugunzá, pé de moleque, cocada, milho assado, milho cozido, pamonha, pipoca, canjica entre tantos outros sabores da época. O pau de sebo era feito pelos homens, na ponta do pau escorregadio ficava o prêmio.


Não faltava a quadrilha, mesmo que fosse improvisada ou ensaiada, barraca do beijo, pescaria, correio elegante, casamento matuto... Hoje só nos restam as lembranças.

São João na atualidade: Embalado, empacotado e inútil.

Nos dias de hoje, o que observamos é pouca criatividade, falta de tempo para algo que era tão importante para diversas comunidades. Fogueiras, mal se ver em frente à porta das casas, o IMA proibi (com certa razão), os balões representam um seríssimo perigo para todos nós, as queimadas são reais, e muitos utilizam o que era uma brincadeira com pura maldade. Os fogos até parecem uma ‘bomba atômica’, as chamadas ‘bombas de 10 (R$). Os traques de massa e chuvinhas são esquecidos pelas crianças, que preferem as grandes bombas. As músicas juninas são remixadas como se estivéssemos no estrangeiro, alguns grupos oportunistas pegam carona nessa onda, e tiram proveito com as suas músicas de uma frase só. Entre pagode, funk, sertanejo universitário, axé music, country, pop rock e tantos outros ritmos desconectos com o São João; as canções juninas são empurradas no esquecimento pela famigerada mídia, essa que tem uma parcela de culpa gigantesca por insistir em querer criar ‘astros’ meteóricos.

A roça vira cidade grande:

Na roça mal podemos encontrar o milho plantado, alguns moradores da zona rural preferem o tão conhecido milho de irrigação, sem gosto e cheio de agrotóxicos. A pamonha embalada enche os armários do povo das fazendas e da cidade, os vestidos de chita, são trocados por tubinhos a la funkeiras, as alpargatas femininas de couro, são trocadas por imitações fajutas dos gladiadores romanos, as tranças agora são raras, os cabelos são vítimas do alisamento maltratante, o trio regional divide o mesmo espaço com os terríveis ‘paredões’ que nos ensurdecem, as escolas estão deixando de falar dessas manifestações populares por pura maldade ou fanatismo religioso, o neon substituiu o candeeiro, o paetê e os cristais swarovski substituíram o conhecido xadrez quase em cem por cento. Infelizmente podemos esperar o pior, caso não exista uma reviravolta urgentemente, o nosso São João ficará somente nas nossas lembranças e nos registros fotográficos.

 

“Era a festa da alegria (São João)

Tinha tanta poesia (São João) 

Tinha mais animação 

Mais amor, mais emoção 

Eu não sei se eu mudei 

Ou mudou o São João...”

De: Luiz Gonzaga e Zé Dantas

 

Nortear é preciso! 

 

Imagem: Google - Obra do artista Militão dos Santos

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Norteando a cultura por Gin Santos

Gin Santos

Ginaldo Santos, nasceu em Piranhas, no sertão de Alagoas. Aprendeu a gostar de arte através da sua avó Antonia Silveira (folclorista). Desde criança adorava dançar. Nos anos 90 mudou-se para Maceió e foi estudar ballet clássico, formou-se pela Escola de Ballet Eliana Cavalcanti, onde integrou o único grupo com técnica profissional em dança do estado, o saudoso Balé Iris de Alagoas. Logo após ingressou no curso de Licenciatura em Artes Cênicas - Teatro pela Universidade Federal de Alagoas. Trabalhou como arquivista de imagens no Instituto Zumbi dos Palmares - IZP, na TV Educativa de Alagoas e Rádio Educativa FM. Atualmente é professor efetivo de Artes na rede educacional de ensino do estado de Alagoas e Coordenador de Cultura da cidade de São Luis do Quitunde.
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