O Brasil que não gosta de leitura, e as dificuldades futuras.

O analfabeto Funcional brasileiro

02/11/2015 | 04:19   
A leitura está presa A leitura está presa

 

Com problemas com a leitura, muitos estudantes foram prestar o Enem 2015. Ao se deparar com textos imensos, na visão de muitos desses estudantes, alguns saíram com a impressão de que houve exagero, de quem formulou as questões. Simplesmente pelo fato de não gostar de ler, ou de não ser incentivado à leitura, o estudante passou por dificuldades, o que não é novidade. Ao confrontar-se com os textos da escritora, filósofa e feminista francesa Simone de Beauvoir e do escritor angolano Augustinho Neto; a maioria dos estudantes parecia que estava com cegueira, ou até mesmo sentindo-se um analfabeto, mesmo que seja o funcional.

Vejamos o que diz essa pesquisa:

No Brasil, conforme pesquisa feita pelo Instituto Pró-Livro, 50% dos entrevistados declararam não ler livros por não conseguirem compreender seu conteúdo, embora sejam tecnicamente alfabetizados. Outra pesquisa, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, revelou dados da oitava edição do Indicador de Analfabetismo Funcional, o Inaf, cujos resultados são alarmantes.

De acordo com o Inaf, a alfabetização pode ser classificada em quatro níveis: analfabetos, alfabetizados em nível rudimentar (ambos considerados analfabetos funcionais), alfabetizados em nível básico e alfabetizados em nível pleno (esses dois últimos considerados indivíduos alfabetizados funcionalmente). Conforme a pesquisa, que aplica um teste avaliando as habilidades de leitura, escrita e Matemática, o domínio pleno da leitura vem sofrendo queda entre todos os entrevistados, tendo eles concluído o Ensino Fundamental ou o Ensino Superior. Os dados mostram que o problema do analfabetismo funcional deve ser levado a sério, pois a dificuldade de compreensão dos gêneros textuais, mesmos os mais simples e mais acessados no cotidiano, prejudica o desenvolvimento intelectual, pessoal e profissional do indivíduo.

*Ensino da Literatura precisa ser reformulado, dizem debatedores.

Debatedores e parlamentares presentes à audiência pública na Câmara dos Deputados concluíram que o método de ensino da Literatura nas escolas brasileiras precisa ser reformulado. A situação da leitura e do ensino dessa disciplina na educação básica foram o tema do debate realizado no mês passado pela Comissão de Educação da Câmara.

Para acadêmicos e parlamentares, as diretrizes dos vestibulares e, principalmente, do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), limitam e prejudicam o modo de abordagem da Literatura no Ensino Médio. Hoje, segundo eles, há um acúmulo de teorias.

Utilizada como panorama na audiência, a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", realizada em 2012 pelo Instituto Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência, indicou que 44% dos brasileiros apresentam dificuldades na compreensão da leitura, o que caracteriza um índice relevante de analfabetismo funcional.

Requerente da reunião, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) considera que todo o processo cultural e de aprendizagem está associado ao livro, à leitura e à Literatura. Para a deputada, esses são fatores que influenciam na formação de identidade e na produção de conhecimento.

"A leitura pode ser considerada um sentido diferenciado, uma outra forma de olhar, conhecer e de se posicionar diante do mundo. Quem, tristemente, não tem acesso a ela como direito básico ou não ultrapassa a condição do analfabetismo funcional, certamente tem seus direitos democráticos e de cidadania negados".

Metodologia tradicional x contemporânea

O professor Arnaldo Niskier, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) defende que esse panorama só mudará quando houver esforços conjuntos para que se trabalhe uma política nacional de educação, e quando a Literatura passar a ser valorizada pelo Enem.

Para ele, o Ensino Médio não estimula o jovem estudante a pensar e necessita passar por uma revolução, começando por mudanças na cultura de leitura e na estrutura de ensino da disciplina.

"A metodologia do ensino tradicional da Literatura como disciplina no Ensino Médio ainda se foca na periodização literária, no acúmulo de teorias", avalia. Na opinião do acadêmico, textos contemporâneos, mais próximos da realidade dos alunos, romperiam o bloqueio inicial criado ao apresentar a Literatura ao estudante.

"Fazendo um caminho contrário, partindo do texto mais contemporâneo, o professor poderia vir a conquistar o aluno e após certa maturidade de leitura, o estudante teria bagagem para ler uma obra clássica, compreender, apreciar ou renegar, mas já com argumentos sólidos para isso", acrescenta.

A Comissão de Educação pretende fazer outras reuniões com instituições acadêmicas e governamentais para discutir o Enem e os desdobramentos dele nos métodos de ensino, para realizar um trabalho mais próximo ao Ministério da Educação.

*Reprodução do Instituto Pró-Livro

Exemplo que entrou para a história da leitura no Brasil contemporâneo.

Enem 2015.


Voz do sangue

Augustinho Neto

 

Palpitam-me

os sons do batuque

e os ritmos melancólicos do blue.

 

Ó negro esfarrapado

do Harlem

ó dançarino de Chicago

ó negro servidor do South

 

Ó negro da África

negros de todo o mundo

 

Eu junto

ao vosso magnifico canto

a minha pobre voz

os meus humildes ritmos.

 

Eu vos acompanho

pelas emaranhadas Áfricas

do nosso Rumo.

 

Eu vos sinto

negros de todo o mundo

eu vivo a nossa história

meus irmãos.

Disponível em: www.agostinhoneto.org.

Nesse poema, o líder angolano Agostinho Neto, na década de 40, evoca o pan-africanismo com o objetivo de

a) incitar a luta por políticas de ações afirmativas na América e na África.

b) reconhecer as desigualdades sociais entre os negros de Angola e dos Estados Unidos.

c) descrever o quadro de pobreza após os processos de independência no continente africano.

d) solicitar o engajamento dos negros estadunidenses na luta armada pela independência em Angola.

e) conclamar as populações negras de diferentes países a apoiar as lutas por igualdade e independência.

Resposta

O poema chama os povos negros do mundo inteiro a apoiar as lutas por igualdade e independência:

“Ó negro da África

negros de todo o mundo”


Letra E

Disponível em: www.agostinhoneto.org.

 

O conteúdo dos comentários abaixo é de responsabilidade de seus autores e não representa a opinião deste portal.
Norteando a cultura por Gin Santos

Gin Santos

Ginaldo Santos, nasceu em Piranhas, no sertão de Alagoas. Aprendeu a gostar de arte através da sua avó Antonia Silveira (folclorista). Desde criança adorava dançar. Nos anos 90 mudou-se para Maceió e foi estudar ballet clássico, formou-se pela Escola de Ballet Eliana Cavalcanti, onde integrou o único grupo com técnica profissional em dança do estado, o saudoso Balé Iris de Alagoas. Logo após ingressou no curso de Licenciatura em Artes Cênicas - Teatro pela Universidade Federal de Alagoas. Trabalhou como arquivista de imagens no Instituto Zumbi dos Palmares - IZP, na TV Educativa de Alagoas e Rádio Educativa FM. Atualmente é professor efetivo de Artes na rede educacional de ensino do estado de Alagoas e Coordenador de Cultura da cidade de São Luis do Quitunde.
São Luiz Net

Curta no Facebook