Chegança: memórias de um dicionarista

16/12/2016 | 00:00   
Dois mestres: Aurélio e Théo. FONTE: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) Dois mestres: Aurélio e Théo. FONTE: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL)

Alguns importantes aspectos do bailado folclórico chegança foram registrados por meio de memórias de um dos nossos mais renomados dicionaristas de todos os tempos: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

A partir de sua primeira e única obra de contos Dois Mundos (1942) — inclusive elogiada pelo criterioso gênio de Graciliano Ramos —, examinaremos a relevância que esta dança exerceu em sua época, 1941, ano em que seu autor escreveu este texto que dedicaria à crítica literária, biógrafa e tradutora mineira — aliás, tragicamente desaparecida juntamente com seu também reconhecido esposo —, Lúcia Miguel Pereira (1901-59) sobre o auto típico de sua terra natal.

Constata-se quão capaz o tema fora de marcar não somente a vida de mestre Aurélio. Seu grande esmero em traduzir em palavras a expressão cultural de seu povo fixa-se na minuciosidade com que nos apresenta a visão de seu mundo a partir de um patrimônio cultural pleno de identidade boreal, alagoana, nordestina, brasileira.

Aurélio Buarque de Holanda foi ensaísta, filólogo, lexicógrafo, jurista sem exercício da profissão e o mais popular dos dicionaristas nacionais. Quarto ocupante da cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, eleito em quatro de maio de 1961, na sucessão do médico Antônio Austregésilo e recebido pelo acadêmico Rodrigo Octavio Filho, em 18 de dezembro daquele ano, era filho do comerciante Manuel Hermelindo Ferreira ­— a respeito de quem haveria igualmente de escrever uma de suas melhores páginas literárias —, e de dona Maria Buarque Cavalcanti Ferreira, de tradicional ascendência; nasceu no Passo de Camaragibe, nas Alagoas, aos três dias do mês de maio do ano de 1910; passaria parte da infância em Porto de Pedras, cidade adjacente, berço da essência de suas memórias, dentre as quais a que nominou »Vozes de chegança«.

O termo »chegança« indica danças dramáticas do chamado ciclo de Natal, que vai desde dezembro a janeiro, no dia de Reis. Determinados investigadores do folk-lore, dentre os quais o insigne Théo Brandão (1907-81), sustentam que o referido termo é proveniente de palavras náuticas como »chegar«, exprimindo a significação de dobrar as velas à »chegada« do navio. Composto por pandeiros e percussão, o ritmo está baseado em heranças ibéricas e soleniza fatos trágicos e heroicos do povo português e é representado por diferentes cenas, chamadas »jornadas«; as mais comuns são (a) o embarque, primeira apresentada e que simboliza o início de uma viagem ao mar, (b) a nau perdida, alusão a uma tempestade atemorizante, (c) a rezinga grande, reprodução de uma desavença entre o piloto e o patrão, (d) o contrabando dos guardas-marinha, (e) a agulha de marear, até à (f) mourama ou combate, momento mais importante da chegança, em que é travada a luta entre mouros e cristãos.

O ritmo da chegança é normalmente desenvolvido por seis pandeiros utilizados pelos marchantes e um apito pelo piloto ou general, este que comanda o desenvolvimento do bailado; tudo sob o som de declamação, canto e dança. Os figurantes se exibem a se trajar marujos da marinha e se expressam como se fossem tripulantes de uma embarcação em alto-mar, de acordo com suas respectivas patentes e postos.

Aurélio viveu sua infância em um contexto no qual os principais mecanismos de interatividade à época se davam ao ar livre por meio de manifestações populares. As suas principais memórias se formaram regidas por ciclos culturais próprios da região Norte alagoana. Foi este o panorama, às margens do rio Tatuamunha, que até à vida adulta, ininterruptamente, encheu de vida e brilho os olhos do ilustre dicionarista. Os imensos e verdes coqueirais, o rio, o mar, os pescadores tostados pelo sol, os marinheiros da chegança, enfim.

Este litoral norte de Alagoas, além de sua extensa e suntuosa costa marítima, de seus coqueiros e de sua culinária ímpar, permite-lhe se vangloriar. Tantas belezas naturais e tanta abundância de cores e cultura, riqueza gastronômica encheram o homem setentrional da sede por expressar, para todo o sempre, o seu contentamento e o seu agradecimento.

Eram tempos em que o artifício tecnológico não ditava modos e regras de comportamento à vida; época em que o arranjo, a disposição e a alegria conferiam ao ambiente o invento quase mágico do auto. Caso da »chegança«, um dos mais antigos bailados folclóricos do Norte alagoano; hoje em dia, uma pena, raramente visto.

O camaragibano apresenta aspectos relevantes importantíssimos no que concerne à formação da chegança:

(1) construção da barca: »Dias antes do Natal principiava a construção da barca. Fincavam paus no solo, atavam-lhes compridas ripas, e após o entaipamento vinha o reboco e a caiação«. Eis um verdadeiro rito; essencial para o incremento da dança;

(2) personagens e figurino: »A chegança — era o que verdadeiramente me impressionava; os personagens da chegança, homens simples, erguidos de súbito, alguns deles, à dignidade de oficiais«.  E continua: »Ostentavam suas fardas brancas, não raro de saco de farinha-do-reino, ombros agaloados, botões de um amarelo reluzente, os quepes a velar um pouco as fisionomias negras ou trigueiras«. Os personagens eram os próprios moradores do vilarejo em sua maioria marujos, que haviam sido ou que tinham alguns de familiares;

(3) cenário e performance: »Oficiais. Viviam fundamente os seus papéis. Com que energia davam ordens, cantando! Como se lhes entrecruzavam as espadas, em arrogante desafio: / Capitão, você não intimide / a quer ser bom patrão...«. Os marchantes assumiam bem a alma e o sofrimento de um marinheiro. Suas vozes eram cansadas por conta do balanço de ondas imaginárias. Moviam seus corpos como se a embarcação estivesse em alto-mar;

(4) exemplos que constituíam sonhos: »[...] Tinha-os por exemplares de grandeza; e, em meus sonhos de menino, não me repontava ambição mais afoita que a de ser oficial da nau Catarineta. [...] Não, creio não haver dito a verdade inteira: nada menos que o posto de oficial encheria bem as medidas da minha cobiça...«. E depois: »[...] O meu sonho, afinal, era ser da chegança, unir a minha voz àquelas vozes que povoavam a noite de cantigas tantas vezes carregadas de penetrante melancolia: Na saída de Lisboa, / quando eu fui puxar o ferro, / alembrei-me da morena /do namoro lá em terra«. Eram marujos que acenavam a esperança de possibilidades em alto mar, distante da vila pobre. (5) Memória e metáfora: »E agora que escrevo, perto do mar, na tranquilidade da noite velha, essas vozes me chegam — vozes de amor mescladas a cantos de adoração religiosa, a gritos de alegria de terra à vista, a gemidos de aflito arrependimento [...]«. E plenifica: »[...] todas essas vozes me chegam, vozes de marinheiros de chegança, mais nostálgicas, mais trêmulas, mais roucas, como exaustas da longa caminhada; chegam-me aos farrapos, essas vozes eternas, do fundo da infância remota, perdida«. Diante do mar, Aurélio relembra com profunda tristeza aquelas vozes que em sua infância o encheram de vida e, como que cansadas, parecem não querer chegar mais.

Chegança. Desenho de Arpad Szenes para a primeira edição de "Dois mundos". Foto: Biblioteca Marcos Vasconcelos Filho.

A preocupação em pontuar detalhes pertinentes ao auto da chegança evidencia a presença — e quase diria: a transcendência — e quão alto era aquele momento para o contista. A chegança foi permanentemente a novidade aguardada, que, ao vir, animava os ânimos, fazia palpitar os corações e enchia renovava de esperanças os sonhos.

Apesar de suas relações interestaduais e internacionais e também de sua intensa atividade intelectual através de trabalhos que lhe conferiram reputação nos meios literários do país, Aurélio nunca deixou de respirar a atmosfera folclórica de seu torrão de nascença. Utilizando-se de uma língua peculiar, adquirida desde os seus quinze anos, quando ingressou no magistério e passou a se interessar pela língua e literatura portuguesas, docemente pôde nos oferecer, como lembra o crítico e cronista alagoano Valdemar Cavalcanti (1912-82), »uma fusão perfeita dos dois de seus grandes dotes, a emoção e a observação«.

Em suas reminiscências, expressas na obra Dois mundos, inferimos aspectos da chegança em suas minudências, olhar perito, meticuloso. Embora alguns detalhes não tenham sido expressos nominalmente pelo ficcionista, como por exemplo o local onde se apresentava a chegança, o fato é que há na memória o muito de subjetividade e, ao seu lado, a sujeição das intuições pessoais e dos sentimentos, o que nem sempre dominamos.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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