O eterno menino Mendonça Júnior e o Natal de Matriz do Camaragibe

21/10/2015 | 00:00   
Mendonça Júnior (óleo de E.Cabral de Mello [1984]). FONTE: reprodução Marcos Vasconcelos Filho. Biblioteca Gov.Lamenha Filho, Academia Al.de Letras Mendonça Júnior (óleo de E.Cabral de Mello [1984]). FONTE: reprodução Marcos Vasconcelos Filho. Biblioteca Gov.Lamenha Filho, Academia Al.de Letras

A simplicidade do povo boreal fora sempre reservatório de vivacidade, heroísmo e júbilo. Estas virtudes podem ser verificadas consecutivamente nas comemorações das diversas épocas do ano. O suor que era derramado sobre os engenhos regava durante o tempo extensivo aquilo que posteriormente eclodiria em alacridade total. As minúcias da miscigenação de toda a gente que por aqui passara edificaram a caracterização de patrimônios culturais (i)materiais, arraigados nas narrativas do passado e refletidos numa história que ainda hoje se (re)constrói. Esta herança transcendente, de que pouco ou quase nada nos beneficiamos na sua invisibilidade, ontem qual hoje, registrou-se elemento salutar para a preservação dos mais sinceros e estonteantes sorrisos.

O matrisense, de ascendência ilustre e marcante para nós outros, nascido no engenho Maranhão, poeta, prosador, professor, jornalista, advogado, juiz, deputado federal, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), bem como da Academia Alagoana de Letras (AAL), A.[Antônio] S.[Saturnino] de Mendonça Júnior (1908-85), reproduz-nos o sentimento cultural passado quase que mesmo prescrito na história de Matriz do Camaragibe, ao escrever o artigo  “O Natal no Vale do Camaragibe”, no concernente às celebrações religiosas e festivas de fins de ano, pelas quais se notabiliza o nascimento do menino Deus, Jesus Cristo, ensaio este, de sua lavra, aparecido, pela vez primeira, no extinto e longevo Jornal de Alagoas (1908-93), no primeiro dia do ano de 1950 e, posteriormente, pelas mãos do médico, mestre e folclorista Théo Brandão (1907-81), através da Comissão Alagoana de Folclore, no número inicial de sua oficial publicação, o Boletim Alagoano de Folclore [Maceió, ano I, n. 1, dez. 1955, p. 13-18], há curiosos e exatos sessent’anos.

Original da primeira página do texto de Mendonça Júnior publicado, há 60 anos, no número inicial do "Boletim Alagoano de Folclore" | Foto: Bibilioteca Marcos Vasconcelos Filho (Maceió)

Cada informação que os olhos e a memória do pequeno Mendonça Júnior puderam registrar foi estresido com o sentimentalismo daquele que apesar de ter crescido e adquirido responsabilidades ainda via diante de si a saudade e a poesia dos tempos áureos de sua infância:

Na véspera de natal, os engenhos apitavam muito cedo, apitavam demoradamente, anunciando a pejada da festa, a paralisação da moagem até o dia de Reis. [...] De tarde a gente ficava alerta para identificar os apitos, o apito agudo e alegre do Maranhão, o apito fino do Vale, o apito grosso do Engenho do Meio, do Carrilhos, do Perú [sic], do Buenos Aires, do Santa Justina, do Unussú [sic].

Eram apitos que aceleravam a excitação das almas não só daqueles que biologicamente eram crianças, como também daqueles que a velhice, e sobretudo o tempo relativo, famulento, voraz, não se cansava de surpreender. As lúcidas lembranças do eterno menino não consentiram passar por despercebido as missas do galo na igreja matriz de Bom Jesus dos Navegantes com os seus adros locupletados de pessoas e folguedos folclóricos, os cantos da Licota na Santa Missa (velha negra do balaio grande e beata), os maracatus, os caboclinhos, as baianas, as poesias recitadas e o pastoril do João Vó, com suas mestras e dianas envolventes, extraordinárias, sedutoras dos senhores de engenho. Salve, Mendonça Júnior! Que Deus haja, não se esquecera também das sanfonas que se alargavam durante toda a noite de Natal...

Como deslembrar, genuína memória, da véspera e dia de ano na igreja de Matriz, que se enchia de gente de onde até nunca se viu, para prestigiar a festa do santo, pagar promessas e renovar novos compromissos? Três ícones emblemáticos que eram notáveis e jamais se ausentavam nestes encontros do padroeiro eram: o velho Aires, que se vestia de opa e carregava a cruz; José Henriques, que tocava violino no coro; e o chefe das cavalhadas, “cavaleriano” José de Almeida. As cavalhadas de Matriz eram vistosas, a congregarem cavaleiros de vários municípios da região. Estes, entre veteranos e calouros, possuíam indumentos pomposos, cheios de prata, e levavam muito a sério o ofício. 

O Bom Jesus, do alto de seu altar na igreja matriz, no dia de ano, prestigiou muitas comemorações na Matriz do Camaragibe. Quadrilhas, polcas, rodas de tropel, cocos e pastoris. Em todo dia dois de janeiro, a alegria, entretanto, declinava, gerando tristeza. A festa se acabara e todos se dispersavam. No engenho Maranhão, onde nascera o menino, no dia de Reis, se queimava a Lapinha, e o último “adeus” consumava-se para dar vazão à espera ansiosa do próximo final de ano.

Ao fim de um itinerário comovedor, inspirador de saudades ou, talvez, de lágrimas, revela o infante já adulto, mas que nunca deixará de regressar volta e meia, o seu lamento: “[...] ocorre-me a interrogação de Machado de Assis: mudaria [mudara] o natal, ou mudei eu? [...] Creio que mudamos ambos, eu e o natal do vale do Camaragibe [...].”

Aliás, e nós, contemporâneos da geração tecnológica, dita “do progresso”, e herdeiros de séculos de tradições, o que, a respeito dos folguedos do Norte oriundos, poderíamos dizer? Graças ao Bom Jesus de Matriz, os olhos, daquele menino sonhador, não puderam ver o que cá, neste lado da dimensão cosmológica, pode-se testemunhar. Para que não haja o domínio da amargura, em meio aos desconsolos de uma época hostil, nem o decair no pranto, por ora, particularmente, dispensemos maiores reflexões e fiquemos no altiplano das relembranças.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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