O boreal e "O banguê nas Alagoas"

15/10/2015 | 00:00   
Diégues Júnior em flagrante quando cursava o primeiro ano na Faculdade de Direito do Recife (1931). FONTE: Arquivo Família Manuel Diégues Júnior (RJ) Diégues Júnior em flagrante quando cursava o primeiro ano na Faculdade de Direito do Recife (1931). FONTE: Arquivo Família Manuel Diégues Júnior (RJ)

Como vimos e aprendemos no artigo anterior, o método etnológico ou etno-histórico é fundamental para abrangermos de forma sistemática e inteligível o modo e a forma de como surgiram os contextos hodiernos de ricas brincadeiras populares, danças e costumes. Ao levar em consideração que o Norte das Alagoas foi o principal núcleo provedor de toda a colonização e desenvolvimento econômico do atual Estado, podemos predicar que desde o princípio este espaço territorial fora criativo e fértil.

Ao desdobrarmo-nos sobre a etnologia desse lugar, nos deparamos com a fabricação de uma identidade folclórica legitimamente alagoana, germinada em meio ao cenário da produção de derivados da cana-de-açúcar. Na melhor compreensão desta premissa, quem irá nos ajudar será Manuel Diégues Júnior (1912-91) em seu livro já clássico O bangüê [sic] nas Alagoas, composto de seis capítulos sobre a formação social, econômica e cultural da hoje unidade federativa. Mas será justamente a última seção que aqui nos interessará, visto tratar exatamente do folclore alagoano.

Para Diégues Júnior (1949, p. 248), foi a partir dos episódios históricos que se estabeleceram as principais épocas do folclore das Alagoas: a idade cabocla ou ameríndia, o período colonial, o período holandês ou heroico, a época imperial e o período republicano. “[...] a formação histórica do folclore alagoano” — escreve — “acompanhou as mesmas etapas que a vida alagoana registra na sua evolução como povo”. “Vem” — prossegue — “dos primórdios da nossa terra; surge quando esta surgiu ao mundo brasileiro, e este ao mundo europeu”.

Em cada época se abrigaram os chamados “ciclos culturais”, afluência de manifestações populares, como por exemplo a poesia ou cantiga, as danças dramáticas, os bailados, os cantos e as lendas. Dentre todos estes ciclos, destaca-se como o mais notório, para Diégues Júnior, aquele que ele próprio denominou ciclo agrícola ou ciclo do açúcar. Este lhe interessou particularmente por quase toda a vida, segundo podemos constatar do levantamento exauriente de sua produção bibliográfica (cartas, poemas, entrevistas, artigos, apresentações, monografias e ensaios que envolvem sete décadas) empreendido pelo professor Marcos Vasconcelos Filho em seu livro Manuel Diégues Júnior: o regional e o cultural (São Paulo: Intermeios, 2012, p. 90-120); de modo particular, porque pôde observar Diégues Júnior íntimas relações das manifestações folclóricas com o engenho e a industrialização dos derivados da cana.

Em Alagoas, o efeito mais nítido, oriundo dessa relação e preservado até os dias que correm, é a dança do coco. A cana-de-açúcar se instituiu expressivamente no cenário alagoano e o coco, dança caracteristicamente alagoana e proveniente dos nossos engenhos, é apenas um dos folguedos, dentre outros, que se manifesta com atenção privilegiada ao trabalho de engenho, às técnicas de sobrevivência e à estrutura econômica da época.

As propriedades rurais com canaviais foram um dos principais e mais importantes alicerces na construção de cantigas, emboladas, cocos, literaturas poéticas, adivinhações, lendas, superstições e remédios; o engenho foi agregador poderoso das relações da sociedade da época, seja entre as famílias dos seus senhores, seja entre as famílias dos que ali se abrigavam em troca da prestação de seus serviços, e, obviamente, entre o grande contingente dos escravizados. Sem a inclusão proporcionada pelo engenho de mão escravocrata, penso que talvez Alagoas não fosse capaz de produzir tanta riqueza folclórica, que hoje ainda detém, mesmo andando adormecida ou até invisível.

O banguê e as manifestações populares se deram contribuições recíprocas e os principais exemplos disso são os folguedos de Natal com o bumba meu boi, o cavalo-marinho, o fandango e o pastoril; ademais, as festas do mês de junho, que comemoravam os santos Antônio, João e Pedro e cujo símbolo era a fogueira na porta de casa, tendo ao lado uma bandeira do santo da noite, no alto de um mastro; e por fim, as comemorações mais específicas do engenho, e intrinsicamente ligadas à cana-de-açúcar, a  “botada” e a “peja”.

A “botada” era o dia mais importante do engenho, pois era a celebração que abria as portas do início da moagem. Para a festa, eram convidados pelo senhor de engenho os amigos, vizinhos, moradores e conhecidos. Já a “peja” traduzia-se no festejo apenas dos trabalhadores de engenho, ocasião em que os mesmos celebravam o fim da moagem, sem direito às farturas da casa-grande; em contrapartida, abusavam na dose da alegria com as comemorações de santos, festas profanas e em outros costumes da vida rural. A alegria era virtude inerente, e este sentimento é o que deixaram fixado, para todo o amanhã, os versos populares.

Capa da primeira edição de "O bangüê [sic] nas Alagoas", aparecido no Rio em 1949 e inclusive com prefácio do amigo e orientador do autor, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-87) | Foto: Biblioteca Marcos Vasconcelos Filho (Maceió)

Em suma, a atenção distinta de Diégues Júnior ao engenho como canal de produção folclórica em O bangüê [sic] nas Alagoas foi sem dúvidas uma das mais ricas, completas e importantes contribuições deixadas por ele em seu legado à compreensão fundiária e ao pensamento social brasileiro e latino-americano. Todavia, não foi esse o único mecanismo a colaborar e influenciar para o surgimento dos folguedos que possuímos hoje em Alagoas. Considerar o banguê como o único fator de fabricação de enredos populares significa desconsiderar outros expoentes extremamente importantes e existentes na estrutura arcaica das Alagoas, tais como os índios em suas aldeias e os escravos refugiados em seus quilombos, bem como os ribeirinhos e a paisagem cinza, complementar à verde, da pecuária.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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