“Volkskunde”, “Folk-lore” e “Ethno-logia”

07/10/2015 | 00:00   
F.S. Krauss. FONTE: Library Thing. F.S. Krauss. FONTE: Library Thing.

Na virada do século retrasado, num anuário de filologia românica, Friedrich Salomon Krauβ (1859-1938) publicava uma abordagem sob o título “Allgemeine Methodik der Volkskunde”, que significa “Metodologia geral da etnologia”. Com este estudo, em princípio, a proposta de F.S. Krauss surgia com o intuito de elaborar um conteúdo metódico acerca do que, num primeiro momento, seria denominado pela junção das locuções “Volks” e “Kunde”, nomenclatura alemã que se traduz por “popular” e, aproximadamente, “notícia”. O vocábulo “Volkskunde”, unido à influência da língua angla, possibilitou o surgimento de uma segunda nomenclatura: o termo saxônico “Folk-Lore”, o qual, posteriormente, também, haveria de estar ao corrente do dialeto inglês e passaria ao nome de que todos hoje melhor somos conhecedores no português: folclore.

Pode-se dizer que, desde há muito, “Volkskunde” e “Folk-lore” são sinônimos, sendo que, na Alemanha, a palavra de origem é compreendida a partir de uma interpretação um pouco mais etnológica. Destarte, como a expressão “Volkskunde”, o Folclore muito se confunde com o estudo de origem grega detido nos povos, i.e., a “ethno-logia”, aportuguesada latinamente para “etnologia”, pelo fato de, justamente, se ter inserido a designação saxônica em seus estudos e pesquisas; e, ao que nos parece, as primeiras abordagens, junto da tradição bretã, feitas em relação ao folclore surgiram na etnologia germânica.    

Dirceu Lindoso — antropólogo-historiador, jurista bissexto e escritor alagoano natural de Maragogi —, nas derradeiras páginas de seu mais recente livro O círculo arcaico & outros estudos etnológicos (2013), lança-se numa observação percuciente e bem oportuna se quisermos refletir sobre o contexto eminentemente alagoano. Leiamo-la:

É preciso um etnólogo de plantão em Alagoas. É preciso que o alagoano tenha consciência [de] que o folclore não é apenas folguedo. Que antes de ser folguedo é etnologia. Faz parte da ciência das etnias. [...] E Alagoas é uma pluralidade de etnologias: há a etnologia do negro, há a etnologia dos índios, há a etnologia dos folguedos populares, há a etnologia da pesca marinha, fluvial e lagunar, há a etnologia dos bonecos de barro, há a etnologia dos instrumentos de caça, há a etnologia dos instrumentos musicais, há uma etnologia da pobreza, há uma etnologia das várias culturas aqui implantadas [...] O homem social alagoano é um homem social cultural e plural.

Para Lindoso, a hermenêutica folclórica está intimamente ligada ao recurso da ciência etnológica, ou seja, do conteúdo extraído da base, do princípio, da elaboração. Por isso que se diz, da “Etnologia”, tratar-se do estudo dos povos “primitivos” ou “arcaicos”, não somente em sentido histórico, mas também culturológico. É na abertura do enredo que se estabelecem fórmula, conteúdo e técnica para uma construção que desembocará na realidade específica gerada, atualizada, permanente e dinamicamente refundida. A essência de toda coisa, pois, está, num sentido profundo, sob dependência de uma inspiração, iniciação real desenvolvida do confronto das tentativas frustradas e frutadas. Todavia, uma observação se faz precisa: a de que a etnologia verifica o “primitivo” correlacionando-o, sempre, com o hodierno, este, homem vivo, contemporâneo e mesmo por vir.


Dirceu Lindoso I Foto: Arquivo Pessoal.

De maneira que percebemos, de forma assaz evidente, que o nortista de Maragogi foi feliz ao abordar a proposta de exegese folclórica das nossas comuns Alagoas a partir de um método: o etno-histórico. Orienta-nos, tal metodologia, através das elementaridades de uma arte-ciência que nos possibilita, ainda e constante, a decodificação daquilo que constituem o ser e a natureza do “povo”. Cá no Norte, o fato folclórico se traduziria muito mais além do que aquilo que está impresso na história boreal. É fator de difusão da organização social, misturada, num colorido quase fantástico, com o monopólio da cana, a exploração do trabalho escravo, a opressão étnica e o poderio dos senhores; eis o adubo adstringente, reprodutor e reconstrutor de costumes, trabalhos, dizeres, danças, canções, dialetos, modos de vida.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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