Espaço e Memória

17/06/2017 | 00:00   
Mestre da cultura popular alagoana: Juvenal Domingos. FONTE: Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (SECULT) Mestre da cultura popular alagoana: Juvenal Domingos. FONTE: Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (SECULT)

Certa feita, ao caminhar sem destino pelo Centro de Maceió, senti-me, por um instante, impelido pelas ondas da multidão que me envolviam a fazer, meio que improvisadamente, uma visita ao insigne — antiga casa dos governadores — “Palácio dos Martírios” (assim por todos conhecido), e presentemente Museu Palácio Floriano Peixoto, atual sede da Secretaria de Estado da Cultura.

Ao adentrar o valoroso recinto — de estrutura arquitetônica neoclássica e fachada greco-romana, tracejada por italiano ilustre que passara um seu tempo na capital alagoana e de quem inclusive já houve até familiar dele que em livro lhe fixasse a memória —, estando eu embevecido pela multiplicidade dos acervos mobiliários, pictóricos e outros patrimônios dos séculos XIX e XX, vi-me tomado por uma, cá no íntimo, sensação de solenidade.

Vagando sozinho pelas escadarias do museu e palácio e despercebido pelos poucos que lá se encontravam, ia reproduzindo em memória o devaneio da contingência de estar ali, um dia, quem sabe, governador... Fantasias de um menino que ainda sou. Muito mais do que os sonhos, a ansiedade e curiosidade estavam a me desassossegar.

Dominado pelo estímulo acelerado de pesquisa, a que me venho habituando, saí investigando vestígios que pudessem me permitir viajar por um percurso que me transportasse à paixão, já estabelecida, pelo folclore de meu Estado natal. Com apetite, fucei a maioria dos livros da simples e ainda pequena biblioteca. Auxiliado por Pablo e seu Cícero, gentis e corteses funcionários, verifiquei um livro de tombo precioso, de n° 05. Folheando-o, identifiquei, quase que sem querer, o primeiro patrimônio vivo do Norte das Alagoas, tombado pela gestão de então, em 2010: mestre Juvenal Domingos, nascido aos vinte e cinco dias do mês de novembro do ano de 1936, idealizador do Grupo de Guerreiro São Pedro Alagoano e natural, genuíno, de São Luís do Quitunde.

Daquele momento em diante a sensação de estar sozinho e de deslocamento já havia se esvaecido. Minha alegria transbordou e me senti, como se estivesse dialogando com um amigo antigo, de longas datas. Entusiasmado, detive-me a averiguar informações sobre sua residência, se morava no povoado Quitunde, no Alto do Redentor, na Rua do Bode, ou na Rua da Farinha;  se estudara no Ginásio Estadual Messias de Gusmão ou se por acaso no Municipal Demócrito Sarmento. Apressei-me a fim de saber em que lugares da cidade costumava se apresentar e passei a questionar as razões de nunca o ter visto comparecendo com seu grupo de guerreiro após as missas de Natal e do Galo defronte à igreja matriz, e de nunca o ter avistado a participar das festas da padroeira. Interroguei o porquê de sua vida tão discreta, e pedi desculpas, antecipadamente, por nunca, a respeito de sua existência, ter ouvido falar.
 
Interroguei o mestre se ele saberia para onde foram os tradicionais blocos carnavalescos, que, quando criança, presenciei passar na Rua Messias de Gusmão, ao Centro de São Luís do Quitunde. Queria saber também dos bumbas que os meninos da minha infância produziam e saíam de porta em porta a solicitar uma contribuição generosa para a consumação da festa após o término da folia. A ansiedade era tamanha, as lembranças, maiores ainda, que confidenciei ao mestre Juvenal, discretamente, o desejo de querer regressar no tempo para a Rua do Dendê e a confecção dos pandeiros de pastoris para as apresentações no Demócrito Sarmento, feitos artesanalmente com latas de bananolas e tampas de cervejas junto à rígida e intolerante professora de português Lucidalva, minha mãe.

Quantas saudades eu estava sentindo do pátio na porta da igreja matriz, lugar de lazer onde as crianças da época se divertiam; e lugar onde o pastoril, após o sermão de padre Edvaldo, se apresentava. Nostalgia tremenda, que não me permitirá esquecer os cocos de roda e os casamentos matutos que se apresentavam nos palhações que eram construídos em todas as festas juninas na rua defronte ao Ginásio Estadual Messias de Gusmão, ao lado da Secretaria de Educação. Ah, e o que falar então das quadrilhas improvisadas, assim como das estilizadas, “Paixão junina” e “Mandacaru”, que abrilhantavam as noites juninas da briosa cidade de Joaquim Machado Cavalcanti!...

Enfim, ainda que sem querer, bisbilhotando o verso da folha 19 daquele livro de tombo número 05, percebi que por escrito, de papel passado, mestre Juvenal me respostava, dando-me o recado que de há muito saíra de São Luís para a capital metropolitana, e que, se eu o quisesse encontrar, o procurasse lá pelas bandas da Rua do Arame na Chã da Jaqueira. Talvez, desde muito cedo mestre Juvenal tivesse aprendido com o Senhor Jesus: nenhum profeta é aceito em sua própria terra... Ou melhor: “santo de casa...”.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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