Norte para a cultura popular: apresentação do folclore

16/09/2015 | 00:00   
Água-forte de Frans Post (c.1612-80) retratando a região Norte em 1645, portanto há exatos 370 anos. FONTE: Biblioteca Nacional de Portugal Água-forte de Frans Post (c.1612-80) retratando a região Norte em 1645, portanto há exatos 370 anos. FONTE: Biblioteca Nacional de Portugal

Ao professor Marcos Vasconcelos Filho: mestre, incentivador, amigo.

Queridos leitores: muitos de vocês devem estar se indagando sobre as razões que me fizeram optar por percorrer um curso no qual pouco se ouve falar nestas bandas alagoanas — isto é, no Norte —, que são, justo, as suas mais inerentes e típicas manifestações populares, tradições estas conhecidas pelo que se convencionou denominar, há mais de século, “folclore”.

Outrora, afirmou o folclorista alagoano José Aloísio Vilela (1903-76) ser imprescindível saber das minúcias para se compreender melhor o significado e a beleza das construções simbólicas da cultura popular. Pela perspectiva apresentada por José Aloísio, penso que seja por demais oportuno envidar esforços por estudos e pesquisas voltados exclusivamente para as revelações de há muito veladas desta vasta e diversa região boreal. A proposta que segue surge, pois, sob o desejo de elaborar e criar um produto para preservar e divulgar as tantas referências folclóricas existentes por aqui.

Sendo assim, esforçar-me-ei ao máximo para apresentar ao público abordagens subsidiadas por fontes de bibliografia pertinente advinda do esforço de pesquisadores apaixonados e em sua maioria desconhecidos no cenário alagoano, tais como o reconhecido viçosense, médico, professor, etnógrafo, antropólogo, escritor e fundador da Comissão Alagoana de Folclore (1948), Théo Brandão (1907-81); o introvertido e profundo vasculhador da história da província, igualmente médico Abelardo Duarte (1900-92), com suas pesquisas em torno da presença cultural afrodescendente; ou o esforçado e humilde guerreiro pilarense, merecidamente Secretário de Estado da Cultura e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), professor Ranilson França (1953-2006).

A levar em consideração o passar das décadas, com o avanço industrial e o ritmo frenético da tecnologia cada vez mais presentes, percebem-se notórias as transformações ou deturpações por que passam os costumes, as crenças, a musicalidade, as danças, a poesia, as cores, os sabores e as fés deste fato social característico. Contudo, abram-se parênteses e se ouse afirmar que a nação de nós cá do Norte — de potiguares e quilombolas, holandeses e ibéricos — vive para contrariar a, por vezes, inevitabilidade do tempo, pois que sobrevive, ainda que invisível quase sempre, a sua mais pura identidade, protagonizada por uma população simples e de formação originariamente agrária.

Decidi, já se o vê, desenrolar os folguedos e manifestações outras do Norte das Alagoas que sem mantêm ativos ou são hoje tão só relicários, mas que, em algum período da história regional, existiram e foram projetados de modo a deixar, por suas cidades e povoados, um verdadeiro registro de DNA de povoações e épocas.   

Das baianas de Maragogi aos trançados e cestarias de Japaratinga; dos quilombos de Porto Calvo aos guerreiros de Matriz do Camaragibe; dos pastoris de Porto de Pedras aos bois dos carnavais de São Miguel dos Milagres; dos cocos de roda do Passo de Camaragibe às cavalhadas de São Luís do Quitunde; das cheganças de Barra de Santo Antônio aos pastoris de Paripueira — o Norte respira e transpira folclore, de maneira que qualquer um poderá sustentar, com veemência e sem receio, que não se pode dizer de Alagoas sem incluir a gente e o espaço do Norte.

Convido você a aventurar-se comigo, portanto, pela grandeza de uma cultura introduzida e tatuada no espírito local, mesclada no cenário rural da cana-de-açúcar pioneiramente aqui plantada (ao altíssimo preço de suor e lágrimas) e contornada pela ativa influência de produtos e gêneros do exterior, recepcionados, particularmente, pelas faixas litorâneas nortistas. Nossas lendas, nossos provérbios, nossas superstições... persistem mais do que se supõe; afinal, fomos nós do Norte de Alagoas quem primeiro demos as boas-vindas a toda esta grande e rica miscigenação de etnias e valores.

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Folclore do Norte por Luiz Cleysson

Luiz Cleysson

É acadêmico de Direito no Centro Universitário Cesmac.
São Luiz Net

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