Reencontrando o pequeno Dololinho

O que temos feito durante todos esses anos?

15/03/2017 | 16:28   
Anobelino Martins aos 6 anos I Arquivo pessoal Anobelino Martins aos 6 anos I Arquivo pessoal

Estava sem conseguir dormir. Sabia que aquela não era uma noite comum. Já passava das duas da madrugada. Da janela do quarto podia ver a lua resplandecente no céu, afinal, entre 12 e 19 de março deste ano de 2017, a lua está cheia, mais formosa que nunca. O silêncio pairava no quarto, as luzes apagadas e tudo numa aparente tranquilidade. Aparente porque visivelmente estava tudo calmo, mas dentro de mim algo me inquietava insistentemente. 

Minha respiração estava lenta, quase ofegante. Mesmo assim consegui aos poucos pegar no sono. Mas, não durou muito tempo, logo, um daqueles pesadelos costumeiros fizera questão de me fazer saltar da cama. Agora, realmente ofegante, olho para o céu, a lua já não esta mais no mesmo lugar. Tento procurá-la, mas o céu é grande demais para caber na janela do meu quarto. Foi aí que entendi que estava com sede, tratei de me levantar a fim de saciar a necessidade do meu corpo. 

Luzes apagadas, passos lentos, procurei ascender a luz. Foi quando percebi que ele estava ali, sentado no sofá, olhando a lua através da janela da sala. Pequenino, cabeça redonda, assim como sua barriga bem desenhada na camisa, olhos grandes e escuros (olhar inocente que refletia o luar), cabelo grande, desarrumado e orelhudo... Estava vestindo uma camisa branca e uma bermudinha azul, meias longas e um sapato preto, com cadarços longos bem amarrados. 

Minha surpresa foi impactante, mas no fundo sabia que ele estava ali, por isso não conseguia dormir direito. Não me importei mais com a luz ou com a água, só queria mesmo saber a razão da sua visita. 

-Então é você? Isso é impossível, o que você faz aqui? Não percebeu que estamos em 2017?  

Ele sorriu, desviou o olhar da lua e olhou pra mim. Seu olhar esperançoso era tudo que eu estava precisando ver. Aquele menino cheio de ideias, disposto a se aventurar, criativo e um grande sonhador era o que estava faltando no homem que agora sou. Ignorando minha pergunta, ele olhou para o livro Só amar em Versos que estava em cima da mesinha e disse:

-Nossa! Então este foi o primeiro. Onde está àquela história do cachorrinho e da velhinha que eu escrevi na 2ª serie? Nós publicamos em algum livro?

-É, aquela foi uma das primeiras histórias que contamos. Não, não publicamos. 

-Eu gosto muito daquela história. A mulher que ajudou o cachorrinho e depois foi ajudada por ele. Tiramos 10 com aquele texto na aula de português. Porque não publicamos?

-A verdade é que eu perdi. 

-Você o que?

-É, Dololinho, eu perdi, ou talvez você fez xixi naquele texto.

-Eu o que, Anobelino?

-Sim, bonitinho, lembra que o nosso berço tinha duas gavetas na parte de baixo e que guardávamos nossos desenhos e escritos lá embaixo? Pois é, com sua mania de fazer xixi no berço, acabou molhando tudo. 

-Nossa, eu gostava tanto daquele texto!

-É, eu também gostava! 

Foi aí que ele começou a caminhar pelo apartamento, olhando lentamente os quadros, as paredes, foi em direção da cozinha e disse:

-Então é aqui que moramos? Muito pequena essa casa. É nossa?

-Sim, é aqui que moramos. É pequeno porque não é uma casa, é um apartamento. E não é nossa, estamos alugando. 

-Hum, sei...

Aproveitei que ele se virou de costas para mim e arrumei algumas coisas que estavam desarrumadas na sala, como estava escuro, torci para que ele não tivesse percebido a bagunça. Depois de uma pausa ele falou.

-Continua desenhando? Eu mesmo desenhei um elefante nenhuma folha que tirei do caderno do Adalgoberto, você lembra? 

-Que elefante? Aquele que você também fez xixi em cima?

Com um sorrisinho alargando as bochechas ele disse:

-Eu? Eu não, nós...

Como foi bom revê-lo. Olhar aquele menino tão inquieto e curioso. Como foi bom olhar para mim mesmo e perceber o quanto mudei. O quanto, agora, sou outro. E o quanto preciso preservar as coisas essenciais que sei que ainda estão bem vivas em mim. Dololinho sempre me ensinou muito e continua ensinando. Ele me disse hoje que sou um artista, que sou um desenhista, um poeta, um contador de histórias. Ele me fez lembrar os sonhos, as metas, as aventuras, o esforço, a fé, o amor... Fez-me voltar ao passado, olhando para o meu presente e entendendo que esse passado ainda é presente, isso porque minha arte não morreu completamente. Pelo contrário, tudo ainda é muito vivo e evidente. Nesta madrugada, Dololinho me levou a pensar e rever coisas que só eu e ele entendemos. E, assim, como ele sempre gostou de fazer, me questionou:

-O que temos feito durante todos esses anos?

Fiquei em silêncio, analisando cada passo meu, buscando coisas grandes e relevantes para dizer a ele.

Quando comecei a dizer algumas palavras ele subitamente me interrompeu:

-Estou com sede, não quer me dar um copo com água?

-Sim, sim, claro. 

Abri a geladeira, que iluminou a cozinha com sua luz, peguei a garrafa com a água e enchi o copo, ao fechar a geladeira percebi que estava sozinho na cozinha. Procurei na sala, nos quartos, no banheiro e não o encontrei. Voltei para a cozinha e percebi mais uma vez a minha sede, a mesma sede que me fez levantar da cama. Bebi a água que estava no copo e voltei para o quarto. Deitei novamente, desta vez, estava mais calmo, com um pouco mais de paz. 

Aquela visita me fez lembrar quem eu sou, nas razões que me fazem ser aquilo que sou. Quando acordei de manhã me veio na mente a pergunta que ele não me deixou responder: ‘O que temos feito durante todos esses anos?’ Entendi que era hora de retomar as coisas que tinha perdido e de preservar ainda mais os presentes que a amiga vida me deu. Não vou “fazer xixi” no meu talento, não quero perder mais nada.

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Blog do Anobelino por Anobelino Martins

Anobelino Martins

É um escritor quitundense. Atualmente faz Filosofia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). É professor, poeta, compositor, desenhista e palestrante.
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